Posts tagged Contos Zen
O Céu e o Inferno
0
Reflectindo sobre a dialéctica céu e inferno, parece-me hoje (porque amanhã posso ter uma opinião diferente) que os dois são aqui mesmo na terra, mais precisamente dentro da nossa mente.
A percepção do que nos rodeia e das crenças que fazem parte do constructo individual, é que podem trazer para a mente consciente o paraíso ou inferno de cada um de nós.
Ambos são elementos necessários para o crescimento e evolução do homem na eterna dualidade que se manifesta em tudo o que nos rodeia. O que seria o paraíso sem o inferno?
Não consigo perceber o que seria viver na eternidade de qualquer coisa.
Parábola: O Monge e o Samurai.
"Um Samurai alto e forte, de carácter violento e rude, foi procurar um pequeno monge, calmo e pacifico…
– Monge …, disse o Samurai, numa voz habituada à obediência imediata… ensina-me o que é isso do céu e do inferno!
O Monge franzino, olhou para o temível guerreiro e respondeu com a mais absoluta calma:
– Ensinar-te algo sobre o céu e o inferno? … a ti? … nem pensar… eu não te posso ensinar coisa alguma! Olha bem para ti … estás imundo… diria mais, nojento … o teu cheiro é insuportável, a lâmina da tua espada está enferrujada, és uma vergonha uma humilhação para a classe dos samurais… some-te da minha vista! … Não consigo suportar a presença horrenda.
O Samurai nem conseguia acreditar no que estava a ouvir … por instantes, ficou boquiaberto, mas logo reagiu: as palavras do pequeno Monge fizeram eco dentro de si e a fúria veio à superfície como um vulcão quando entra em erupção …
Então o Samurai estremeceu de ódio, o sangue subiu-lhe ao rosto e mal conseguia dizer uma só palavra de raiva. Num gesto rápido, empunhou a espada enferrujada, ergueu-a sobre a cabeça e preparou-se para decapitar o monge. Nesse mesmo segundo, o monge, muito calmamente, disse-lhe sem pestanejar:
– Aí está … isso … é o inferno.
O Samurai, mais uma vez, ficou pasmado … e deteve-se. Testemunhou a serenidade, a compaixão e absoluta dedicação daquele pequeno homem, que colocou a própria vida em risco para lhe ensinar algo sobre o céu e o inferno.
O guerreiro, lentamente, baixou a sua espada e, cheio de gratidão – subitamente pacificado pela sabedoria do pequeno Monge, baixou os olhos e a cabeça numa atitude de humildade. Nesse mesmo segundo o Monge disse-lhe com serenidade:
– Aí está … isso … é o céu!"
Parábola – De quem é o presente?
0
Perto de Tóquio vivia um idoso grande samurai que se dedicava a ensinar o zen aos jovens. Apesar de sua idade, corria a lenda de que ainda era capaz de derrotar qualquer adversário.

Certa tarde, um guerreiro conhecido pela sua total falta de escrúpulos apareceu por ali. Era famoso por utilizar a técnica da provocação: esperava que o seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência privilegiada para reparar os erros cometidos, contra-atacava com velocidade fulminante. O jovem e impaciente guerreiro jamais havia perdido uma luta. Conhecendo a reputação do samurai, estava ali para derrotá-lo e aumentar a sua própria fama.
Todos os estudantes se manifestaram contra a ideia, mas o velho aceitou o desafio. Foram todos para a praça da cidade e lá o jovem começou a insultar o velho mestre. Chutou algumas pedras na sua direcção, cuspiu-lhe no rosto, gritou todos os insultos conhecidos, ofendendo inclusive os seus ancestrais. Durante horas a fio, fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. No final da tarde, sentindo-se já exausto e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.
Desapontados pelo fato de o mestre ter aceitado tantos insultos e provocações, os alunos perguntaram-lhe: – Como o senhor pode suportar tanta indignidade? Por que não usou a sua espada, mesmo sabendo que podia perder a luta, ao invés de mostrar-se covarde diante de todos nós?
- Se alguém chega até você com um presente, e você não o aceita, a quem pertence o presente?
- A quem tentou entregá-lo – respondeu um dos discípulos.
- O mesmo vale para a inveja, a raiva, e os insultos – disse o mestre – Quando não são aceites, continuam pertencendo a quem os carregava consigo. A sua paz interior depende exclusivamente de si. As pessoas não lhe podem tirar a calma, só se você permitir…

Comentários Recentes